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PF diz que Moraes articulou presença de ministros do STF e STJ em evento patrocinado por Vorcaro em Londres
Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) durante as investigações sobre o Banco Master apontam que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), participou diretamente da articulação para levar ministros do STF e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) a um evento jurídico realizado em Londres, em abril de 2024, com patrocínio do então banqueiro Daniel Vorcaro.
O material faz parte de um relatório da PF cujo sigilo foi retirado pelo ministro André Mendonça. As conversas analisadas pelos investigadores detalham os bastidores do I Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, realizado na capital britânica entre os dias 24 e 26 de abril daquele ano.
Segundo a investigação, além de atuar nos convites, Moraes teria sido consultado sobre aspectos da organização de fóruns relacionados ao grupo e participado de discussões sobre convidados e programação. Reportagens baseadas no relatório apontam ainda que Vorcaro acompanhava de perto a repercussão do encontro na imprensa.
Mensagens citam atuação de Moraes nos convites
Uma das conversas destacadas pela PF ocorreu em 28 de março de 2024. Nela, um interlocutor identificado como “Marcio Conjur” informou a Vorcaro que Moraes havia entrado em contato diretamente com colegas para convidá-los ao fórum.
O diálogo indica que Gilmar Mendes havia recebido o convite e que Luis Felipe Salomão, do STJ, também discutia sua participação. O interlocutor chegou a encaminhar a Vorcaro uma mensagem atribuída a Moraes convidando Gilmar para o evento e informando que o encontro teria participação de autoridades como o ex-presidente Michel Temer e o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.
As mensagens também indicam que Moraes teria sugerido a presença de Temer no encontro.
O conteúdo integra o conjunto de dados extraídos do telefone de Vorcaro e analisados pela Polícia Federal. A existência das mensagens e as interpretações apresentadas no relatório não significam, por si só, comprovação de irregularidade por parte dos citados.
Vorcaro queria retirar nome do Master dos convites
Outro ponto destacado pelos investigadores envolve a exposição do Banco Master como patrocinador.
Nas conversas, Vorcaro questionou um interlocutor sobre a possibilidade de o nome da instituição não aparecer como realizadora nos convites oficiais. A sugestão recebeu concordância do interlocutor.
Apesar disso, registros e materiais sobre o fórum apontaram a participação do Banco Master na realização do encontro.
A PF incluiu essas mensagens no relatório que procura reconstruir a relação mantida por Vorcaro com autoridades e pessoas influentes durante os anos que antecederam a crise da instituição financeira.
Evento reuniu ministros e autoridades
O fórum de Londres contou com uma extensa relação de autoridades brasileiras.
Entre os participantes citados nos registros estão os ministros do STF Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, além de integrantes do STJ, autoridades do governo federal e representantes do mundo político e jurídico.
Também estiveram relacionados ao encontro nomes como Michel Temer, o então diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, o senador Ciro Nogueira, o então advogado-geral da União Jorge Messias e o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski.
Um dos principais convidados internacionais foi o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, entrevistado por Daniel Vorcaro durante o fórum.
Segundo o relatório, Vorcaro também discutiu com interlocutores a repercussão jornalística da participação de Blair e demonstrou interesse na divulgação de um encontro reservado envolvendo o ex-premiê britânico e ministros brasileiros.
Fábio Faria aparece nas conversas
O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria também aparece nas mensagens analisadas pela PF.
Segundo o relatório, Faria teria atuado anteriormente na aproximação entre Vorcaro e Moraes, inclusive compartilhando com o empresário um contato atribuído ao ministro e participando da articulação de encontros.
Em abril de 2024, conversas relacionadas ao fórum mostram Faria tratando com Vorcaro sobre a participação de autoridades e mencionando um encontro na casa de Moraes.
Essas informações passaram a fazer parte do conjunto de elementos utilizados pela PF para reconstruir a proximidade e os contatos mantidos pelo então controlador do Banco Master com integrantes de diferentes instituições.
PF também analisou outra edição do fórum
As mensagens não tratam apenas do encontro realizado em 2024.
A Polícia Federal encontrou conversas relacionadas a uma segunda edição do fórum jurídico em Londres, prevista para 2025, mas que acabou cancelada.
Segundo as mensagens, Moraes teria feito sugestões sobre a organização, aprovado textos e manifestado resistência à participação de determinados nomes. Uma das conversas atribuídas a Vorcaro indicava ainda incômodo do ministro com o espaço que seria destinado ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na programação.
A assessoria de Tarcísio afirmou que ele nunca teve participação prevista no evento e que não mantinha relação com Vorcaro. O Grupo Voto, envolvido na organização, informou que a edição foi cancelada diante das denúncias envolvendo o Banco Master.
Relatório provoca disputa no STF
A divulgação das mensagens ocorre em meio a uma disputa jurídica sobre a própria validade da apuração.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) sustentou que a investigação determinada por André Mendonça sobre elementos relacionados a Moraes seria nula. Para o procurador-geral Paulo Gonet, diante de indícios envolvendo um integrante do Supremo, o procedimento deveria seguir as regras específicas de competência da Corte, sem que um ministro conduzisse por conta própria uma apuração sobre outro magistrado.
A PGR não concluiu, nessa manifestação, se as condutas descritas pela Polícia Federal configurariam ou não crimes. O questionamento apresentado pelo órgão é principalmente sobre a forma como a investigação foi conduzida.
As mensagens sobre o fórum em Londres, portanto, fazem parte de um conjunto mais amplo de informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro que passou a alimentar uma das maiores controvérsias recentes dentro do Supremo.
Até o momento, os registros sobre a participação de Moraes na organização e nos convites do evento não representam, isoladamente, prova de prática criminosa. O conteúdo permanece sob análise no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master.
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