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Lula admite que não sabia que Bolsa Família estava sem reajuste há mais de três anos: “É inexplicável”

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Manuella Mello/Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, na noite desta quinta-feira (15), que desconhecia a ausência de reajuste nos valores do Bolsa Família durante seu terceiro mandato. A declaração foi feita durante entrevista à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, em meio à disputa do segundo turno das eleições presidenciais de 2026.

Questionado sobre a decisão de aumentar o benefício apenas às vésperas da eleição, Lula reconheceu que o programa social permaneceu sem uma correção geral dos valores pela inflação desde sua reformulação, em março de 2023.

O presidente afirmou que só tomou conhecimento da situação após o tema ser levado à sua atenção e classificou como inexplicável a ausência de atualização durante sua administração.

“Eu não sabia, porque é inexplicável, Renata, é inexplicável que, no governo do Lula, alguém pense em não reajustar, sabe, a inflação no salário das pessoas. É impensável. Mas aconteceu”, declarou.

A afirmação chamou atenção porque o Bolsa Família é um dos principais programas sociais do governo federal e atende milhões de famílias em situação de vulnerabilidade econômica.

Lula afirma que cobrou explicações dos ministros

Durante a entrevista, Lula relatou que realizou uma reunião com integrantes do governo para entender por que os valores do programa não haviam sido corrigidos anteriormente.

Segundo o presidente, ele questionou os ministros sobre a falta de reajuste, especialmente diante da existência de espaço fiscal para realizar a atualização.

Lula afirmou que, após receber as explicações, determinou que o benefício fosse corrigido de acordo com a inflação acumulada.

A declaração representa um reconhecimento público de que a atualização dos valores não havia sido realizada durante a maior parte de seu terceiro mandato.

Embora o governo tenha mantido o valor mínimo de R$ 600 desde 2023, o benefício ficou sem correção geral pela inflação até setembro de 2026, período em que o aumento dos preços reduziu seu poder de compra.

Reajuste foi anunciado a 17 dias das eleições

O aumento do Bolsa Família foi anunciado pelo governo federal em 17 de setembro, exatamente 17 dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, realizado em 4 de outubro.

A medida estabeleceu uma correção de 15,04%, calculada com base na variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre março de 2023 e agosto de 2026.

Com a atualização, o valor mínimo garantido por família passou de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio estimado subiu de R$ 675 para R$ 777.

Os novos valores passaram a valer na folha de outubro, com os pagamentos programados para começar em 19 de outubro, conforme o calendário oficial do programa.

O reajuste foi formalizado pelo Decreto nº 13.120/2026, publicado em edição extra do Diário Oficial da União.

A proximidade entre o anúncio e o calendário eleitoral colocou a medida no centro das discussões políticas, especialmente em relação ao momento escolhido para a correção dos benefícios.

Proposta de Orçamento de 2027 não previa reajuste

Outro ponto levantado durante a entrevista foi a ausência de previsão para aumentar o Bolsa Família na proposta de Orçamento de 2027 encaminhada pelo próprio governo ao Congresso Nacional.

O documento foi enviado em 31 de agosto, pouco mais de duas semanas antes do anúncio da atualização dos valores.

Ao ser questionado sobre essa situação, Lula afirmou que não tinha conhecimento de que o reajuste havia ficado de fora do planejamento orçamentário.

O presidente declarou que, após descobrir a situação, buscou informações sobre a disponibilidade de recursos para garantir o aumento.

A ausência de previsão inicial para a correção dos valores abriu questionamentos sobre o planejamento do programa social e a participação do presidente nas decisões relacionadas ao benefício.

Aumento terá impacto bilionário nas contas públicas

Segundo informações apresentadas pelo governo federal, o reajuste do Bolsa Família terá um custo adicional estimado em R$ 5,8 bilhões ainda em 2026.

Para 2027, a previsão é de uma despesa adicional de aproximadamente R$ 22 bilhões.

O governo sustenta que existe espaço fiscal para financiar a atualização, sem comprometer as metas estabelecidas para as contas públicas.

Entretanto, o aumento das despesas sociais ocorre em um cenário de discussões sobre o equilíbrio fiscal, o crescimento da dívida pública e a necessidade de financiamento permanente dos programas federais.

Economistas também destacam que a manutenção do poder de compra dos benefícios exige planejamento orçamentário e acompanhamento da inflação ao longo dos anos.

Entenda os novos valores do Bolsa Família

Além da elevação do piso para R$ 691, o governo atualizou os componentes utilizados no cálculo do benefício.

O Benefício de Renda de Cidadania, destinado a cada integrante da família, passou de R$ 142 para R$ 164.

O Benefício Primeira Infância, pago por criança de até seis anos, foi reajustado de R$ 150 para R$ 173.

Já o Benefício Variável Familiar, destinado a gestantes, nutrizes e integrantes de sete a 18 anos incompletos, passou de R$ 50 para R$ 58.

Os valores efetivamente recebidos dependem da composição familiar e das condições estabelecidas pelo programa.

O reajuste será aplicado automaticamente aos beneficiários que atendem aos critérios, sem necessidade de realizar um novo cadastro exclusivamente para receber a correção.

Declaração ocorre durante disputa contra Flávio Bolsonaro

A entrevista de Lula à TV Globo aconteceu em meio à campanha do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.

O petista disputa a Presidência da República contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato da oposição.

Durante a campanha, os programas sociais e as políticas de transferência de renda passaram a ocupar espaço importante nas discussões sobre economia, combate à pobreza e poder de compra da população.

Lula defendeu o reajuste como uma medida necessária para recompor as perdas provocadas pela inflação.

A oposição, por sua vez, tem questionado o calendário de anúncios de medidas econômicas e sociais realizados pelo governo na reta final do processo eleitoral.

Apesar da controvérsia política, o aumento do Bolsa Família foi formalizado por decreto e integra as novas regras de pagamento do programa.

A declaração do presidente de que desconhecia a ausência de reajuste por mais de três anos também ampliou o debate sobre a gestão do benefício, o acompanhamento das políticas sociais e o planejamento das despesas públicas durante seu mandato.

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